“Água de beber
Bica no quintal
Sede de viver tudo”
Esses foram os primeiros versos da primeira apresentação de Zélia Cristina, na Sala Funarte. O espaço estava abrindo as portas para novos talentos e ela veio consoante com os versos de Milton Nascimento: com muita sede de viver tudo.
Menina de Niterói, acompanhada de seu violão desde muito nova, Zélia Cristina sempre caminhou lado a lado com a música, mas a opção definitiva de carreira só aconteceu neste show, em Brasília, em 1981. Dali pra frente, Zélia e música nunca mais se separaram. O show teve uma boa repercussão e ela começou a se apresentar com frequência nos espaços de Brasília. Depois de abrir um show de Luiz Melodia, foi convidada a representar Brasília no projeto Pixinguinha, que viajou diversas cidades do país e levou o enorme talento de Zélia para além das terras candangas.
Em 1986, uma Zélia um pouco mais experiente e cheia de vontade de mostrar seu trabalho encarou a estrada com seu fusca branco e voltou para o Rio de Janeiro, onde começou a planejar seu primeiro show, que contava com uma guitarra, um baixo acústico e um clarinete – e, claro, com sua voz grave e marcante. À medida que experimentava, Zélia ia mexendo nas possibilidades de repertório e mostrando sua preferência por arranjos e versões nem um pouco óbvias para canções nacionais e estrangeiras. Essas experiências serviram de laboratório para a criação de um estilo muito peculiar.
Toda a irreverência de Zélia encontrou a pólvora que precisava para estourar o primeiro barril: a diretora de teatro Ticiana Studart, que acabava de chegar com ideias frescas de Nova Iorque. Elas arranjaram iluminadores, maquiadores, figurinistas, técnicos e uma banda – um show de verdade! O repertório estava pronto e o nome não podia ser mais coerente com a realidade. Em meio ao caos cultural, político e econômico do final da década de 80, o show foi facilmente batizado: “Zélia Cristina no caos”. Ainda correndo por fora do circuito da grande mídia, os resultados foram bastante positivos. Foram duas indicações ao prêmio Sharp de melhor cantora e de artista revelação. Ela estava no caminho certo!
Os bons frutos logo foram colhidos e Zélia foi convidada para uma temporada de três meses nos Emirados Árabes. Os três meses se prolongaram por mais dois, que a própria Zélia descreve como um tempo de muito aprendizado pessoal e amadurecimento profissional.
O primeiro disco teve que enfrentar o grande problema de quem tem talento, mas ainda não tem nome forte na mídia: um disco bastante comercial, mas com algumas pérolas escondidas dentro dele, como a gravação de “Segredo” de Luiz Melodia com a participação dele e, “Astúcia” de Jussi Campelo.
Foi no segundo CD que adotou o sobrenome da sua avó e mudou o nome para Zélia Duncan. Seu trabalho se consagrou e foi reconhecida como a grande revelação PopRock nacional. Desde Marina Lima, no final dos anos 70, ninguém ainda tinha aparecido, individualmente, para mostrar a força da nova geração, como aconteceu com Zélia e também com Cássia Eller.
Com voz grave e suave, Zélia se consagrou com o segundo CD como cantora e compositora pop, mas marcou também sua presença na MPB. Para este disco, compôs “Miopia”, “A fé”, “Coração na boca” e “Inteira pra mim”. Para a Série SongBook, de Almir Chediak, deu nova roupagem e interpretou de forma deliciosa a música “Sábado em Copacabana”, de Dorival Caymmi.
Em seu CD de 2004, Zélia prestou um verdadeiro tributo à música. Com direção musical e produção de Bia Paes Leme, "Eu me transformo em outras" trouxe deliciosas recriações do repertório de grandes cantoras brasileiras de todos os tempos, uma belíssima homenagem de Zélia a suas referências musicais, com arranjos cuidadosos e interpretação impecável.
Em 2006, além da carreira solo, substituiu com louvor Rita Lee nos vocais femininos de Os Mutantes, saindo do grupo no mesmo ano.
Em 2008 dedicou-se ao lançamento e apresentações em turnês pelo país do espetáculo “Amigo é casa”, ao lado de um dos ídolos da juventude, a cantora Simone. A parceria envolveu clássicos como “Meu ego”, de Erasmo e Roberto Carlos, e misturou as “Almas” de Simone e Zélia.
Com onze discos lançados em 18 anos de carreira, Zélia Duncan é considerada uma das melhores cantoras e compositoras da música brasileira. Versátil, ousada, de alma aberta.
Este ano, trabalha o disco “Pelo sabor do gesto”, que tem a sinestesia em todos seus sentidos. Quem ouve consegue entender que não só os gestos, como também os sons podem ter um sabor valioso.
A homenageada de novembro estará no Teatro Poeira, dia 12 de novembro, no projeto MPB Solo, o primeiro programa feito exclusivamente para a internet. Não perca!
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