Carioca da gema, Sebastião Rodrigues Maia nasceu em 28 de setembro de 1942 e cresceu em um dos bairros mais tradicionais da cidade: a Tijuca. Local, inclusive, onde fez amigos que mudariam para sempre a cara da MPB. Nesse time estavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Jorge Ben Jor.
Para quem não sabe, o talento do nosso artista homenageado do mês aflorou cedo, e aos sete anos, ele já começava a engatinhar como compositor. Em 1956, formou o seu primeiro grupo, Os Tijucanos do Ritmo, que faziam o circuito das paróquias cariocas com influência de nomes como Trio Los Pancho e Perez Prado. Mas essa “aventura musical” não durou muito, e com Roberto e Erasmo, formou “Os Sputniks”.
Antes de completar 17 anos, foi para os Estados Unidos e criou o conjunto “The Ideals”. No entanto, com um grave semelhante ao de Barry White e contaminado pela sonoridade dos “The Isley Brothers”, sua jornada americana terminou na América do Norte, tendo que voltar ao seu país de origem. E valeu muito a experiência... Por causa dela, Tim trouxe a soul music para a Jovem Guarda. E a grande virada mesmo aconteceu quando o Rei gravou, em 1969, uma canção dele, "Não vou ficar". A faixa, que também integrou a trilha sonora do filme “Roberto Carlos e o diamante cor de rosa”, foi um grande sucesso e ajudou a abrir várias portas para Tim chegar ao seu primeiro trabalho solo, um compacto, que trazia duas músicas autorais, intituladas "Meu país" e "Sentimento”. Ainda nesse ano, gravou “These are the songs", que ganhou registro de Elis Regina, em duo com ele e foi incluída no álbum "Em pleno verão", da Pimentinha.
A consagração definitiva veio em 1970, com "Tim Maia", seu primeiro LP, lançado pela gravadora Polydor, após uma indicação dos Mutantes. O sucesso foi simplesmente arrasador, o álbum vendeu mais de duzentas mil cópias e se manteve por seis meses em primeiro lugar no Rio de Janeiro, com destaque para as faixas "Azul da cor do mar", "Coronel Antônio Bento", “Primavera e "Eu amo você".
Para fechar o ano com chave de ouro, gravou “Chocolate”, que originalmente era um jingle para a Associação Brasileira dos Produtores de Cacau e se transformou em mais uma febre radiofônica.
Nos três anos seguintes, lançou mais três LPs homônimos que foram grandes êxitos de vendagem e execução nas rádios. Canções como "Não quero dinheiro", "Gostava tanto de você" e "Réu confesso" caíram no gosto do povo e animaram festas e bailes por todo o país.
Ainda na década de 1970, conheceu Manuel Jacintho Coelho, líder da polêmica doutrina Cultura Racional. Nessa época, mergulhou de cabeça nas ideias do guru ao ler a série de livros chamados de “Universo em desencanto”, mudando de forma drástica seu estilo de vida, que de desregrado e boêmio, passou a ser disciplinado e saudável. Essa influência também foi sentida em sua música, que ganhou os álbuns “Tim Maia Racional - volumes 1 e 2”, ambos lançados pelo seu próprio selo batizado de Seroma (palavra “amores” ao contrário e abreviação do próprio nome, “Sebastião Rodrigues Maia”).
Esses discos são considerados verdadeiras obras primas, principalmente pela fortíssima pegada de soul e funk, e pela ótima forma física que foi extremamente benéfica para a qualidade de sua voz. Só que Tim se decepcionou com a Cultura Racional, se desentendeu com o Mestre Manuel e abandonou a seita. Com isso, tirou de circulação os LPs que se tornaram valiosos itens de colecionadores e o sucesso “Imunização racional” passou a ser apenas um dos vários clássicos presentes nesses trabalhos.
Nos anos 2000 novas faixas deste período foram descobertas e originaram o disco "Racional volume 3", cujas faixas foram disponibilizadas na internet e posteriormente lançadas em CD, em 2011.
Vamos dar uma pausa para uma curiosidade: Tim realizou o grande sonho de ser pai, em 1975, e registrou o filho como Carmelo... No entanto, mudou de ideia no mesmo dia e anunciou para toda família que Telmo tinha sido o nome escolhido. “Telmo” passou anos sem saber que seu nome de batismo era Carmelo, e só descobriu a verdade quando entrou para a escola. Pérolas do Síndico!!
Voltando à carreira, depois da fase racional, Tim Maia aproveitou a explosão da disco music e fez um dos seus discos mais populares e conceituados, o seminal “Tim Maia disco club”, que fez explodir um dos seus maiores hits: “Sossego”.
Não teve pra ninguém nos anos 80, e ele reinou absoluto como o cantor mais popular do Brasil. Nenhum outro artista conseguiu emplacar tantas músicas de forma tão consistente. A década começou com “Você e eu, eu e você”, e se manteve quente por todos os anos posteriores. Em 1981, "Do Leme ao Pontal", lançado no compacto "Amiga", incendiou o verão, e depois, com Sandra de Sá, veio a arrebatadora "Vale tudo". Na sequência, o LP “O descobridor dos sete mares” rapidamente se transformou em outro “arrasa quarteirão”, conquistando as rádios de todo o país, com destaque para a faixa título e a balada românica “Me dê motivo”. Em 1985, gravou “Um dia de domingo”, num dueto com Gal Costa. E foi assim até o final da década, com "Telefone", "Pede a ela", "Leva", "Pudera", "Paixão antiga", "Tudo em cima" e tantas outras que fizeram o povo dançar e se emocionar.
Vieram os anos 90, e junto com eles, um impressionante volume de trabalho, acompanhado de muitos problemas de saúde. Ainda assim, Tim lançou nove discos em apenas sete anos e arrebanhou uma nova legião de fãs. Além da aclamação popular, Tim Maia também foi o artista mais consagrado pela crítica nesse período, vencendo por cinco vezes o atualmente conhecido como Prêmio da Música Brasileira (antigo prêmio Sharp) em 90, 92, 93, 95 e 97.
Depois de vários desgastes com as gravadoras, ele resolveu assumir por completo o controle de sua carreira. Voltou com a ideia da Seroma e direcionou as energias para a Vitória Régia Discos, por onde passou a lançar seus trabalhos. Nesse período vários medalhões do pop brasileiro, como Titãs, Marisa Monte e Paralamas do Sucesso gravaram suas canções. Tim retribuiu a gentileza e gravou “Como uma onda”, de Lulu Santos e Nelson Motta, que foi trilha de um comercial de TV muito popular, e se transformou num grande sucesso.
Em 1992, o amigo de longa data, Jorge Ben Jor, estava na crista da onda e viralizou o apelido de “Síndico do Brasil”, no refrão do “W/Brasil”, mais uma febre musical. A homenagem impulsionou ainda mais a carreira de Tim durante a década de noventa.
Em meio a tanta alegria e descontração, um capítulo triste estava por vir... Em 1998, durante uma apresentação no Teatro Municipal de Niterói, Tim Maia passou mal e teve que deixar o palco numa ambulância. Após complicações cardiovasculares, ficou internado durante uma semana no hospital, vindo a falecer no dia 15 de março, de infecção generalizada.
Um ano depois, foi homenageado com um show tributo por vários artistas da MPB. O espetáculo gerou um especial de TV, que foi registrado em CD e DVD.
Mesmo anos depois de sua morte, Tim Maia ainda é um fenômeno de popularidade. Seu nome rende mais de duzentas mil buscas por ano no Google e sua música permanece como trilha sonora da vida de milhões de fãs espalhados pelo mundo, fazendo dele um ídolo eterno. A voz potente, o senso rítmico aguçado e o carisma inigualável foram os elementos que marcaram seu estilo inconfundível. Por essas e muitas mais, foi eleito pela revista Rolling Stone Brasil, como o 9º maior artista da música brasileira.
Em 56 anos vividos, o nosso “Síndico” deixou como legado mais de 30 discos, o DVD "Tim Maia - Programa Ensaio 1992", diversas coletâneas, compactos e participações em álbuns de outros artistas. Foi publicada ainda a biografia “Vale tudo – O som e a fúria de Tim Maia”, de autoria de Nelson Motta. O musical “Vale tudo” também invadiu palcos do Rio e de São Paulo, com o ator Tiago Abravanel encarnando nosso astro e trazendo de volta um pouco daquele swing característico de Tim, que deixou saudade. E em breve, começam as gravações do filme provisoriamente intitulado "Tim Maia", com direção de Mauro Lima (o mesmo de "Meu nome não é Johnny"), que também é corresponsável pelo roteiro, ao lado de Antônia Pellegrino. O longa não tem previsão de lançamento, mas a expectativa por um lugarzinho no cinema começa agora!!
No repertório, destaque para "Você e eu, eu e você", "Descobridor dos sete mares", “Do Leme ao Pontal”, "Chocolate", "Me leva", e “Paixão antiga”; sem falar, claro, em “Não quero dinheiro”, “Vale tudo”, “Sossego”, e “Imunização racional”, entre outras, que Tim Maia imortalizou. Tudo isso e muito mais você acompanha aqui, nos 90,3, que vai homenagear durante todo o mês de setembro, essa fera da nossa música que completaria, agora, no dia 28, setenta anos!!