Terça-feira, dia 27 de maio, rolou uma festa no Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes, para lançar o programa “Sexo MPB”. Foi uma noite memorável. Ali, consegui uma coisa que eu sempre quis: reunir artistas de várias gerações e estilos, sem preconceito, num bate-papo divertido e instrutivo sobre aspectos do comportamento em nosso cancioneiro, com direito a canjas deliciosas.
Então, depois de ouvirmos músicas sexy-dançantes escolhidas em comum acordo por mim e meus queridos amigos DJS, Marcel Chappman e Yuri Almeida, começou o tão esperado talk-show. Nem eu nem ninguém imaginávamos que fosse tão, como dizer, apoteótico.
Silvia Machete e Wando – os performáticos A cantora performática Silvia Machete abriu a noite ao som de “16 toneladas” – velho samba-rock, que foi regravado há alguns anos por Funk Como Le Gusta – e conseguiu a proeza de equilibrar-se num bambolê e ao mesmo tempo acender um baseado (!). Depois cantou duas músicas sensuais ao lado do violonista e compositor Edu Krieger, autor de uma delas. A certa altura disse que daria um CD seu para quem se dispusesse a chupar seu dedão do pé. E ninguém mais ninguém menos que Wando topou a parada. Ele mesmo, o “obsceno” Wando, que em seguida cantou seu hit “Gostosa” para Silvia, numa demonstração viva de que em matéria de carisma a disputa ali era acirrada.
Alfredo Del-Penho e Beth Carvalho – samba da melhor qualidadeEm seguida, o jovem Alfredo Del-Penho deu seu recado. Pedi que ele cantasse um samba que mostrasse o quanto o homem brasileiro gostava de vangloriar-se de ser o grande garanhão (enquanto às mulheres, nada era permitido). Então, cantou e tocou um belo samba de Moreira da Silva e do cômico Zé Trindade, “1.296 mulheres”, de 1952. Em seguida, entoou um dos muitos sambas que se faziam antigamente sobre porrada em mulher: “Lá vem ela chorando”, de Alvarenga, o primeiro samba-enredo da Portela, do começo dos anos 30. Este samba já havia sido gravado por Beth Carvalho, e eis que a rainha do samba – presente na platéia – foi até o palco, explicando o que rola de machismo em nosso samba e que ela sempre lutou muito contra esse problema. Para ilustrar, cantou “Olho por olho”, um samba que ela fez muito sucesso (em 1977) exigindo direitos iguais entre homens e mulheres no quesito fidelidade.
Márcio Gomes, Gottsha e Edu Krieger – novos talentosDepois da canja luxuosa de Beth, Alfredo continuava no palco, e acabou acompanhando também meu amigo Márcio Gomes, cantor de vozeirão que estou produzindo, no choro “Da cor do pecado” (Bororó), canção emblemática, ícone de sensualidade na MPB pré-bossa nova. Em seguida Gottsha, grande cantriz sempre em cartaz com vários musicais e no ar na novela “Duas caras”, reviveu o samba-canção “Alguém como tu”, outra pérola sensual pré-bossa, mostrando que se quiser pode ter uma bela carreira também de cantora na MPB, ainda que sua praia seja mais a canção americana. E Edu Krieger, chamado por Alfredo, cantou um samba sobre as “damas da noite” de Copacabana.
Miltinho e Ademilde Fonseca – veteranos em formaEm seguida foi a vez de dois mitos da música brasileira que tive a emoção e a honra de receber no palco: Ademilde Fonseca e Miltinho – 87 e 80 anos, respectivamente. Deram um show de simpatia e ritmo, entoando choros e sambas antológicos, que versavam sobre os temas do show. Ademilde foi de “Doce melodia”, lindo choro de Abel Ferreira com letra de Luiz Antônio que cita velhos bairros de pegação do Rio Antigo (o Leblon e o Joá), e “Pedacinhos do céu” (Waldir Azevedo/ Miguel Lima), ícone do romantismo nacional. Miltinho foi de “Mulata assanhada” (Ataulfo Alves) – uma de nossas muitas musas mulatas – e “Menina-moça” (outra de Luiz Antônio), sambalanço que narrava os perigos da perda da virgindade de uma moça em 1960.
Fátima Guedes, Paulo Padilha e Regina Navarro Lins – os transgressoresDepois foi a vez da craque Fátima Guedes, do talentosíssimo cantor e compositor Paulo Padilha (que veio especialmente de Sampa para o evento) e da sexóloga Regina Navarro Lins subirem ao palco. Era o momento de falar de temáticas transgressoras em termos de amor e sexo. Fátima cantou a sensualíssima “Ele” e em seguida “Condenados”, que critica a fusão de dois em um, e os problemas que isso acarreta numa relação simbiótica e monogâmica. Paulo mostrou “Dia Santo também” – um samba debochado que diz que a namorada só quer dar pra ele segunda e terça-feira, e que nos outros dias dá pro namorado “oficial”. Hilário! Também cantou a bela “Ninguém sabe o que ela quer”, sobre as artimanhas do desejo feminino. Ambas estão em seu CD “Samba delocado, descolado samba” (Dabliú), que eu descobri há um ano e meio quando fui jurado do Prêmio Tim de Música. Regina Navarro, grande inspiradora do meu livro História Sexual da MPB, comentou alguns dos temas, com sua clareza habitual.
As Frenéticas e Ney Matogrosso – as vozes do desbundeA seguir, viria um bloco para se falar do desbunde dos anos 70. Ney Matogrosso, que queria apenas assistir ao show e não subir ao palco, foi homenageado por mim naquele momento. Dediquei a noite a ele por ser um personagem símbolo desta “história sexual da MPB”, além de ser um dos meus grandes ídolos desde pequeno. E então chamei ao palco As Frenéticas originais – Sandra Pêra, Duh Moraes, Leiloca e Lidoka (Regina e Edyr não puderam ir) – que deram um show de simpatia e ainda cantaram – acompanhadas por Edu Krieger, que foi fisgado para subir ao palco, sem saber de nada previamente – os clássicos “Perigosa” e “Dancin’days”. Ninguém esperava por isso, nem eu. Foi uma maravilha reviver aquele uníssono de vozes que também marcaram o começo de minha vida e a de tantos ali presentes.
Wando – encerramento em clima de motelFechando o evento, o inenarrável Wando voltou ao palco para cantar suas músicas deliciosamente eróticas e desbravadoras, como “Moça” – que já se atrevia a falar contra o tabu da virgindade em 75 –, “Emoções” – pioneira canção gay bem resolvida da MPB, de 78, – e o gran finale com “Obsceno” (“Ê, me leva que eu vou com você”), na qual realizou um “teste sexual com a platéia” em forma de música, e o chacundum-chiclete “Fogo e paixão” (“Meu Iaiá, meu Ioiô”), que ninguém resiste. Todos cantaram em coro. Uma noite inesquecível e que, tenho certeza, renderá muitos frutos ainda em minha carreira. È justamente este clima descontraído, gostoso e de alta voltagem sensual que pretendo seguir em meu programa Sexo MPB. Se liguem, hein!

Rodrigo Faour