Por Carla Paes leme
O nosso homenageado de maio é um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira. Para muita gente, o maior. Ele queria cantar como João Gilberto, fazer música como Tom Jobim e letra como Vinícius de Moraes. Independente de ter conseguido essa façanha tripla, ele é uma verdadeira unanimidade. Ele é Chico Buarque que está lançando seu novo CD, “Carioca”, depois de oito anos sem gravar.
Francisco Buarque de Hollanda nasceu no dia 19 de junho de 1944, na Maternidade São Sebastião, no Largo do Machado, Rio de Janeiro. Chico era o quarto dos sete filhos do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e da pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim. Quando Chico tinha dois anos, a família se mudou para São Paulo e, em 1953, para a Itália. Foi lá que ele compôs suas primeiras "marchinhas de carnaval".
Aos 15 anos, Chico já mostrava um grande interesse pela música, mas foi o disco “Chega de saudade”, de João Gilberto, em 1959, que alterou definitivamente a relação dele com a música e fez com que ele compusesse sua primeira obra: “Canção dos olhos”.
Não só a música atraía as atenções de Chico Buarque. Em 1961, ele publicou suas primeiras crônicas no jornal por ele batizado de Verbâmidas, do Colégio Santa Cruz. Dois anos depois, ingressava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, curso que abandonaria três anos depois.
A primeira apresentação em show foi em 1964, no Colégio Santa Cruz, cantando “Canção dos Olhos”; mas ele considera o marco zero de sua carreira a música “Tem mais samba”, feita sob encomenda para o musical “Balanço de Orfeu”.
O primeiro compacto de Chico Buarque foi lançado em 1965 com “Pedro pedreiro” e “Sonho de um carnaval”, que, aliás, foi a primeira música dele inscrita num festival, o da TV Excelsior. A canção defendida e depois gravada por Geraldo Vandré não se classificou.
Chico participaria de vários outros festivais. Em 66, “A banda”, dividiu, com “Disparada”, de Théo de Barros e Vandré, o primeiro lugar no II Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela Record. O sucesso foi imediato. A música vendeu mais de cem mil cópias em uma semana e foi traduzida para vários idiomas. Desde 1978, “A banda” integra o repertório da Band of Irish Guards, uma das corporações musicais que se apresentam durante a troca de guarda do Palácio de Buckingham, na Inglaterra. Chico também venceu o Festival Internacional da Canção, com a música “Sabiá”, parceria dele com Tom Jobim, e recebeu o prêmio sob as vaias do público do Maracanãzinho.
Chico Buaque se mudou para o Rio e lançou seu primeiro LP pela RGE em 1966, quando teve o primeiro embate com a censura: a música “Tamandaré”, incluída no repertório do show “Meu refrão”, foi proibida após seis meses em cartaz, por conter frases consideradas ofensivas ao patrono da Marinha.
Ele também apresentou programas na TV. Para quem só se lembra de “Chico e Caetano”, que foi ao ar na década de 80 na TV Globo, vale lembrar que em 68 ele dividia com Nara Leão o programa musical “Pra ver a banda passar” da TV Record.
Chico sempre esteve presente no cinema. Em 68, estreou como ator no cinema, ao lado de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Nara Leão e Ronnie Von, no filme “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman, interpretando ele mesmo. Quatro anos mais tarde, atuou, ao lado de Nara Leão e Maria Bethânia, no filme de Cacá Diegues “Quando o carnaval chegar”, para o qual compôs quase todas as músicas da trilha sonora. Chico voltaria a fazer músicas para mais dois filmes de Cacá: “Joanna francesa” e “Bye bye, Brasil”. Chico tem mesmo fascínio pela sétima arte. No CD “Carioca”, que está chegando às lojas este mês, ele apresenta duas músicas que falam de cinema: “As atrizes” e “Ela faz cinema”, música que já está na programação da MPB FM. Isso sem falar na regravação de “Imagina”, parceria com Tom Jobim, que foi gravada originalmente por Djavan e Olívia Bygton para a trilha sonora do filme “Para viver um grande amor”, de Miguel Faria Jr. Além de compor músicas para mais de 40 filmes, Chico já teve livros seus como “Estorvo” e “Benjamin” levados para o cinema. “Estorvo”, de Ruy Guerra, inclusive foi parar no Festival de Cannes em 1980.
O teatro também contou com Chico como autor e compositor de trilhas. “Ópera do Malandro”, por exemplo, foi remontada ano passada e acabou chegando até Portugal, tamanho o sucesso que fez por aqui. “Calabar”, "Roda viva” e “Gota d’água” foram outros espetáculos do dramaturgo Chico Buarque.
“Roda viva”, aliás, foi música que concorreu em festival e se transformou numa peça teatral visada pela ditadura militar. Uma tropa do Comando de Caça aos Comunistas chegou a invadir o teatro Galpão, em São Paulo, onde o espetáculo estava em cartaz, depredando as instalações e espancando atores e técnicos da montagem de “Roda viva”.
Dias após a decretação do Ato Institucional número CINCO, em dezembro de 68, Chico Buarque foi detido em casa e levado ao Ministério do Exército para prestar depoimento sobre a sua participação na passeata dos cem mil e sobre as cenas exibidas na peça “Roda viva”, consideradas subversivas. Em seguida, partiu para um auto-exílio na Itália, onde gravaria dois discos.
Chico retornou ao Brasil em 1970 voltando-se para o protesto político com “Apesar de você”, uma resposta crítica ao regime ditatorial no qual o país ainda estava imerso, que viraria uma espécie de hino da resistência à ditadura.
Foi em 1973 que Chico Buarque, para driblar a censura, criou o personagem heterônimo Julinho da Adelaide. Quase impossibilitado de gravar suas próprias canções, lançou, então, o disco “Sinal fechado”, com quase todas as músicas de outros compositores, e escreveu o livro “Fazenda modelo”.
Sem querer se transformar em símbolo da luta política contra o regime militar, Chico passou a evitar shows, realizando, em 75, um único espetáculo com Maria Bethânia. Foram nove anos sem encarar profissionalmente um palco, limitando-se a participar de eventos em benefício de causas sociais, como os shows de Primeiro de Maio, promovidos pelo Centro Brasil Democrático.
Chico também compôs para balé, como fez com Edu Lobo para o espetáculo “O grande circo místico”.
Em 1983, compõe o samba Vai passar, que, no ano seguinte, se tornaria uma referência na campanha pelas "Diretas já", da qual participou ativamente. Aliás, Chico se engajou em várias campanhas como a do “Natal sem Fome” da Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e da Campanha pela Paz no Futebol.
Em 1991, Chico ganha prêmio também como escritor. Foi com o romance “Estorvo”, publicado pela Companhia das Letras, com o qual ganha o "Prêmio Jabuti de Literatura". Os direitos de publicação de Estorvo foram rapidamente vendidos para sete países: França, Itália, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Estados Unidos e Portugal. Neste último, a venda atingiu 7.500 exemplares em apenas três dias, surpreendendo a Editora Dom Quixote.
O talento de Chico Buarque chegou também ao Sambódromo. Em 1998 ele foi homenageado pela Estação Primeira de Mangueira e virou enredo da escola, que acabou sendo a campeã do Carnaval. Pé quente esse Chico Buarque!
Em mais de 40 anos de carreira, Chico Buarque compôs centenas de canções em parcerias, versões e adaptações, compostas para teatro e cinema. Suas músicas foram gravadas em mais de 40 álbuns, entre projetos, discos solo, gravações ao vivo, coletâneas e discos de outros intérpretes dedicados a ele. Isso sem falar nos sete livros publicados. O último foi “Budapeste”, que, assim como outros, também vai virar filme. Como todos sabemos, a obra completa de Chico Buarque é uma das maiores riquezas que a cultura brasileira produziu até hoje.